Arquivo mensal maio 2018

porSítio Sapopema

Sistemas Agroflorestais

Diálogo de vidas: a ciência dos sistemas agroflorestais complexos

Joel Henrique Cardoso

O conceito de sistema agroflorestal ou agrofloresta é muito debatido no meio acadêmico.  A definição mais inclusiva encara o termo agrofloresta como um nome coletivo de sistemas de uso da terra nos quais espécies lenhosas perenes (árvores e arbustos) estão se desenvolvendo em associação com plantas herbáceas (vegetais, pastagens) ou animais, em um arranjo espacial, uma rotação, ou ambos. Destaca-se a importância da dimensão sistêmica, que se evidencia nas interações de interesse ecológico e econômico entre as árvores e outros componentes do sistema.

Apesar de aceitar-se o conceito ampliado, de que basta a presença de árvores em consórcio com plantas herbáceas e arbustivas, sejam exóticas ou nativas, desde uma perspectiva agroecológica os Sistemas Agroflorestais (SAF´s) mais adequados são aqueles que mais se aproximam da dinâmica sucessional da vegetação original, sua estrutura e funcionalidade, visando atender demandas humanas de modo sustentável ao longo do tempo. Os SAFs sucessionais ou Sistemas Agroflorestais Regenerativos Análogos (Safra) consistem em sistemas de alta complexidade, multiestratificados, onde se aproveita o espaço horizontal e vertical da área de plantio, adensando o maior número de espécies, de forma a explorar os diferentes níveis que compõe a floresta.

Quando este conceito é apresentado, a maioria dos técnicos se assusta e não sabe por onde começar. A maioria de nós, técnicos, não está preparada para tomar decisões frente as possibilidades múltiplas que os sistemas agroflorestais complexos nos apresentam. No entanto, os sistemas agroflorestais não foram inventados pela ciência moderna, o que leva a pensar que a dificuldade está no olhar simplificado e não na complexidade dos sistemas. Se não, como explicar que as experiências bem sucedidas com sistemas agroflorestais complexos estão em sua quase totalidade calcadas em conhecimentos tradicionais e são desenvolvidas na maioria dos casos por homens simples, que não passaram pelos bancos escolares.

Os chamados sistemas agroflorestais são práticas antigas, mas muito pouco estudadas. A forma da ciência moderna compreender o mundo tem se pautado em métodos que compartimentam, simplificam e reduzem os temas estudados, com a promessa de que este processo transformará o complexo, de difícil controle, em simples e manejável.

A ciência moderna avançou a passos largos nessa direção nas últimas décadas. A simplificação orienta processos que são fáceis de serem repetidos, o que possibilita a maior produção, em espaços de tempo mais curtos, tornando as sociedades modernas mais eficientes no processo de transformação do mundo para atender as demandas crescentes da espécie humana. No entanto, dentro da própria ciência, a guardiã da verdade das sociedades modernas, existe uma maioria de pessoas e instituições que afirmam que a humanidade está destruindo o ambiente. Muitas destas pessoas e instituições buscam novas formas de fazer ciência que sejam capazes de conviver com a complexidade da vida.

Como uma atividade milenar, a agricultura sofreu um processo de transformação muito acentuado pelas novas práticas fundadas nos princípios da ciência moderna. A produção de alimentos, fibras e combustíveis por meio de atividades agrícolas foi extremamente simplificada a partir do advento da revolução industrial na Europa. No século XX a agricultura moderna, baseada no uso de adubos químicos, agrotóxicos, máquinas, sementes e mudas, submetidas a melhoramentos genéticos desenvolvidos em laboratórios e estações experimentais, foi introduzida nos países em estágio inicial de industrialização.

Este processo alterou decisivamente a produção de alimentos. Quanto mais industrializada e moderna uma sociedade, menos pessoas dedicam-se a agricultura. A agricultura moderna imita processos industriais e os alimentos são cada vez mais manipulados, havendo cada vez mais distância entre quem faz agricultura e quem consome o alimento.

Apesar do extermínio de muitas formas de agricultura tradicional, que é causa e efeito de processos globais de transformação social, os pequenos agregados familiares agrícolas ainda constituem dois quintos da humanidade, ou seja, existem muito mais camponeses hoje do que se pode imaginar.

Ao mesmo tempo que a maioria das famílias camponesas está submetida a lógica de acumulação capitalista, servindo ao interesse das grandes corporações que são capazes de re-estruturar o mundo social e natural para conservar a sua condição imperial, a condição camponesa surge como alternativa para grande parte das pessoas conquistarem sua autonomia. Este processo de volta ao campo ou recampesinização, conectado com a prática de produção de alimentos que incorpore os princípios e práticas de sistemas agroflorestais, consiste em uma estratégia de resistência da espécie humana à crise planetária causada pela (ir)racionalidade da (in)eficiência produtiva do modo capitalista de produção, que é avaliada pela capacidade de consumir e não de produzir recursos naturais.

As práticas e sistemas agroflorestais são estratégias de produção estáveis ao longo do tempo, pois uma parte significativa das plantas se mantém no sistema por longos períodos, aumentando a eficiência energética e acelerando os ciclos de materiais, que vão sendo acumulados no ambiente cultivado. Além de aumentar a resiliência do local de cultivo, o elemento arbóreo integrado a produção de alimentos possibilita as famílias agricultoras a obtenção de outros bens necessários para a vida, como lenha, madeira, fertilidade dos solos, proteção contra ventos, chuvas torrenciais e excesso de irradiação solar, conservação de rios e nascentes e espaços para fluxos das espécies e seus materiais reprodutivos. As espécies arbóreas complexificam os sistemas agrários e inserem novas dimensões no processo de produção de alimentos, acrescentando estratos verticais em termos de copa e raízes e ampliam a dimensão temporal dos cultivos, possibilitando à família agricultora diversas colheitas de um mesmo plantio.

Para que as pessoas percebam que as florestas ou sistemas agroflorestais estão contribuindo para o bem estar e qualidade de vida, elas precisam refletir sobre os benefícios gerados pelas árvores, algo que escapa do olhar distraído pela racionalidade moderna, que fragmenta a visão dos atores e instituições que os cercam (vizinhos, amigos, parentes, assistência técnica, igreja, agentes comerciais e etc.). Neste contexto, uma família de agricultores e todo o seu entorno vê como valorizáveis somente os bens materiais que podem ser comercializados, como a terra, a produção agropecuária e a força de trabalho.

Os sistemas agroflorestais em termos práticos e teóricos avançam na direção da complexidade. Portanto, o estudo de sistemas agroflorestais além de consistir no aprendizado de práticas de cultivos e criações, deve estimular a reflexão para o desenvolvimento de um novo olhar sobre a vida e suas relações. Esta reflexão deve servir como exercício de rompimento com a visão reducionista, que simplifica e compartimentaliza o pensamento das pessoas para que elas só percebam as partes e sintam-se impotentes frente ao complexo.

Trabalhar com sistemas agroflorestais complexos será tanto mais complicado, quanto mais aferrados estivermos ao pensamento reducionista, que não compreende a vida. Assim, afirmamos que a ciência dos sistemas agroflorestais complexos pode ser sintetizada como diálogo de vidas, que trabalham de forma cooperada em favor do aumento e qualidade da própria vida do sistema.

 

CARDOSO,J.H. Diálogo de vidas: a ciência dos sistemas agroflorestais complexos. 2009. Artigo em Hypertexto. Disponível em: <http://www.infobibos.com/Artigos/2009_4/dialogo/index.htm>. Acesso em: 12/5/2018